sexta-feira, 17 de abril de 2015

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Bomba Relógio


            Era jovem e odiava desde muito novo as estranhas fases da vida. Jocoso, ria sobre coisas trágicas relacionadas à própria existência, momentos em que estivera perto de ser comparado ao lixo, ao nada, ao zero. Momentos em que fora de fato o lixo, o nada, o zero. 
               Sentado solitário em uma cadeira numa calçada qualquer, olhou para o céu límpido noturno repleto de incontáveis estrelas e respirou, calma e profundamente. Em seu interior um grito se anunciava surgindo de seu centro de gravidade: forte, sonoro, potente, libertador, desabafador, desesperador. 
               Triste.
                O som subiu mas não seguiu seu destino. Parou seco. Um baque na garganta. Não iria além. Toda sua dor decidira permanecer.
             A imagem que seguiria presa em sua mente até o fim de seus dias, torturando-o, aparecia pela primeira vez. 
             Ele chorou, mas abafou - como uma bomba relógio prestes a explodir - com vergonha de ser percebido.   

sábado, 17 de janeiro de 2015

O tempo, o gênio e o universo.

Momento da criação. 
Bilhões de anos para a formação da imagem do universo reconhecível por nós. Em bem menos tempo Vivaldi compôs as Quatro Estações e, ao mesmo tempo, parece que na breve sinfonia ele captou a essência desses bilhões de anos. No início movimentos caóticos, explosões de corpos celestes, implosões, choques de esferas, luz, ausência de luz. Aos poucos o universo criava seus rumos, suas rotas, e as esferas passavam a seguir caminhos específicos atingindo a fase adulta. Allegro, movimento de estações. Um ano, uma década, um século, um milênio, uma eternidade. A vida e seu show, os sons do espaço e seu silêncio, as rotações, os corpos errantes. Tudo isso na grande tela do céu. Bilhões de anos de um universo que duraram segundos na cabeça do gênio Vivaldi.  

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Cotidiano


Sua esposa o esperava pacientemente à porta enquanto ele ajustava mais uma vez as horas no velho relógio cuco que insistia em se adiantar, como se o mundo estivesse sempre com pressa. Uma vez terminado o ritual, ele vestiu seu agasalho, enrolou seu cachecol no pescoço e apanhou seu simpático chapéu xadrez, presente de sua filha que vivia com o marido em outra cidade. Já eram velhos. A mulher por volta dos oitenta e três, e o homem, um pouco mais novo, em torno dos setenta e nove. Casados há mais de sessenta anos levavam uma vida de cuidado mútuo e muito respeito, um casal exemplar: nenhuma traição, muito romantismo e um amor pela vida somente comparável ao universo idílico de poetas que, como Virgílio, se refugiavam na Idade do Ouro.


Eram saudáveis. Ou o mais próximos disso para um casal de avançada idade. 
Ele fora pescador. 
Ela, enfermeira aposentada. 
Ele provia os alimentos.
Ela provia os curativos.
Ele: amarras e nós.
Ela: costuras e pontos.
Ambos: cumplicidade.

Saíram de mãos dadas. Mãos que revelavam histórias, que traziam consigo as marcas de toda uma vida contada em anos e calos, em unhas e meses, em dias e veias, em rugas e horas. Mãos machucadas e muitas vezes cuidadas por ela, mãos firmes e hábeis com as dele. Mãos. 

Caminhavam o mais rápido que o vigor físico lhes permitia, rumo à feira do bairro para realizar as compras da semana. Uma vez de volta ao lar, ela iniciava o preparo das refeições enquanto ele se ajeitava em frente à janela acendendo seu velho cachimbo. Disse a ela trivialidades acompanhadas de um rouco e quase mudo "eu te amo".


Assim, relaxado, ele pensava na vida relembrando momentos agradáveis, em épocas alcançadas a custo de muito esforço por uma memória já falha. Tinha como aliado o velho álbum de fotografias desbotado que, entre imagens reconhecíveis e outras já nem tanto, fornecia pedaços de uma memória visual que despertavam sentimentos variados há muito escondidos em seu âmago: saudosismo; alegria; angústia por não lembrar "daquele rosto" em meio a tantos outros; e por fim, tristeza por esquecer nomes. A vida passava como um filme em Super-8 diante de seus olhos e ele não conseguia ler as legendas. Tentou se levantar para pegar uma limonada. 
Caiu duro no chão. 
Sua esposa ouviu o barulho e resolveu ver o que acontecia: 
Ele morrera, vítima de um AVC.   

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Veneno

Que essa noite seja mais estrela, menos nuvem
Que a grama seja mais verde, menos seca
Que meus sonhos sejam mais serenos, menos vívidos
Que os caminhos sejam mais ladrilhos, menos asfalto

Que os verões sejam mais sombra, menos calor intenso
Que os invernos sejam mais vinho, menos solidão
Que as feridas sejam mais cicatrizes, menos sangue
Que o relógio marque mais o ritmo do agora, e menos o do futuro regrado

Que os banhos de chuva sejam mais refrescantes, menos granizo
Que orações sejam mais devoção, menos persuasão
Que olhares sejam mais intensos, menos repreendedores
E que crianças brinquem mais, e sejam menos adultas

Que as janelas inspirem mais poesia, e estejam menos fechadas
Que sorrisos sejam mais francos, menos fachada
Que os lábios sejam mais beijo, menos ofensas
Que a vida seja mais saúde, menos doença

Que os dias sejam mais proveitosos, menos desperdício
Que evasivas sejam mais necessidade, menos subterfúgio
Que as memórias tornem-se mais constantes, menos vagas
Que pressentimento seja mais sentimento, menos verdade

Que o fogo seja mais fogueira, menos incêndio
Que o vento seja mais brisa, menos vendaval
Que as escolhas sejam mais racionais, menos emotivas
e que esses versos sejam lidos mais como remédio, menos como veneno. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ana

Cada grão de areia no vasto universo,
cada gota d'água do mar,
cada corpo estendido na cama,
cada drama e poema no ar,
cada respiração profunda da alma,
cada espírito que vaga ao sonhar,
cada um dos sorrisos de Ana
que, inexplicavelmente, aprendi a amar. 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Pesadelo

Pesadelo vá embora,
pra longe daqui.
Vá invadir o sono de outro
Esqueça que sou eu que sonho esta noite,
fuja de meus sonhos infantis.

Pesadelo vá embora,
corra na direção de outros sonhos alegres.
Atrapalhe o mundo idílico de quem não merece,
Daqueles que não deveriam sequer imaginar.

Pesadelo vá embora,
não volte, não te quero.
Nunca que te quis,
mas de intrometido ainda assim viestes.
Agora vais.

Pesadelo não volte jamais.