segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Cotidiano


Sua esposa o esperava pacientemente à porta enquanto ele ajustava mais uma vez as horas no velho relógio cuco que insistia em se adiantar, como se o mundo estivesse sempre com pressa. Uma vez terminado o ritual, ele vestiu seu agasalho, enrolou seu cachecol no pescoço e apanhou seu simpático chapéu xadrez, presente de sua filha que vivia com o marido em outra cidade. Já eram velhos. A mulher por volta dos oitenta e três, e o homem, um pouco mais novo, em torno dos setenta e nove. Casados há mais de sessenta anos levavam uma vida de cuidado mútuo e muito respeito, um casal exemplar: nenhuma traição, muito romantismo e um amor pela vida somente comparável ao universo idílico de poetas que, como Virgílio, se refugiavam na Idade do Ouro.


Eram saudáveis. Ou o mais próximos disso para um casal de avançada idade. 
Ele fora pescador. 
Ela, enfermeira aposentada. 
Ele provia os alimentos.
Ela provia os curativos.
Ele: amarras e nós.
Ela: costuras e pontos.
Ambos: cumplicidade.

Saíram de mãos dadas. Mãos que revelavam histórias, que traziam consigo as marcas de toda uma vida contada em anos e calos, em unhas e meses, em dias e veias, em rugas e horas. Mãos machucadas e muitas vezes cuidadas por ela, mãos firmes e hábeis com as dele. Mãos. 

Caminhavam o mais rápido que o vigor físico lhes permitia, rumo à feira do bairro para realizar as compras da semana. Uma vez de volta ao lar, ela iniciava o preparo das refeições enquanto ele se ajeitava em frente à janela acendendo seu velho cachimbo. Disse a ela trivialidades acompanhadas de um rouco e quase mudo "eu te amo".


Assim, relaxado, ele pensava na vida relembrando momentos agradáveis, em épocas alcançadas a custo de muito esforço por uma memória já falha. Tinha como aliado o velho álbum de fotografias desbotado que, entre imagens reconhecíveis e outras já nem tanto, fornecia pedaços de uma memória visual que despertavam sentimentos variados há muito escondidos em seu âmago: saudosismo; alegria; angústia por não lembrar "daquele rosto" em meio a tantos outros; e por fim, tristeza por esquecer nomes. A vida passava como um filme em Super-8 diante de seus olhos e ele não conseguia ler as legendas. Tentou se levantar para pegar uma limonada. 
Caiu duro no chão. 
Sua esposa ouviu o barulho e resolveu ver o que acontecia: 
Ele morrera, vítima de um AVC.   

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